domingo, 5 de abril de 2009

Renan Marques Liparotti
Rochele Kalini
Rosanne Bezerra de Araujo
Rosiane Mariano
Valeska Limeira Azevedo Gomes

Afonso Henrique Fávero
Aldinida Medeiros Souza
Antônio Fernandes de Medeiros Jr
Arandi Robson Martins Câmara
Carmela Carolina Alves de Carvalho
Cássia de Fátima Matos dos Santos
Edlena da Silva Pinheiro
Edônio Alves Nascimento
Eldio Pinto da Silva
Jackeline Rebouças Oliveira
Joana Leopoldina de Melo Oliveira
Kalina Naro Guimarães
Ligia Mychelle de Melo
Mácio Alves de Medeiros
Marcel Lúcio Matias Ribeiro
Marcos Falchero Falleiros
Maria do Perpétuo Socorro Guterres de Souza
Massimo Pinna
Peterson Martins
Renan Marques Liparotti [4-4-2009]


Editora Martins, 1971:
de: p. 81: "Nos documentos publicados por Lamego é patente o nativismo"...
até: p. 84: ..."a expressão do coletivo, de que não se destacavam as personalidades de pouco relevo."


CAPÍTULO II – TRANSIÇÃO LITERÁRIA
2
Grêmios e Celebrações



Os Renascidos

O tópico sobre o qual o colega Peterson versou seu texto introduziu a noção de literatura congregada, importante para entendermos o início da formação de um sistema mesmo que caracterizado ainda por um autopúblico formador de uma subliteratura.

No tópico dois, Grêmios e celebrações, Candido irá expor características importantes de academias que se destacaram como a dos Renascidos e a dos Seletos.

A Academia dos Renascidos adquirirá significação por englobar autores pernambucanos, paulistanos e mineiros, havendo pela primeira vez um sopro de integração entre os intelectuais no Brasil que irá se traduzir numa vaga consciência de integração.

Outro aspecto interessante é o fato de os Renascidos terem tratado do nativismo, elucidando pontos da história local e se preocupando com a imagem do índio. Este, por exemplo, foi considerado, pela primeira vez, “menos bruto do que parece” e se concluiu, num dos poemas, que este povo não merecia o tratamento até agora adotado.

Dentro dessa temática, destaca-se ainda a preocupação com o caso de Diogo Álvares Corrêa – o Caramuru – que exprime a visão de nossa gênese histórica e social, tema esse recuperado por Santa Rita Durão – o que corrobora o início de um sistema literário no Brasil. Mostra-se como desejo, inclusive, a composição de uma epopéia nativista, dando categoria estética aos feitos da crônica local. A academia, todavia, se decompôs antes de terminar esse feito que, ao que parece, permaneceu no estado de esboço publicado por João Lúcio de Azevedo.

Os Seletos

Outra academia em destaque se mostrou a dos Seletos que, ao que parece, foi menos ambiciosa e menos significativa, pois já nos objetivos prenuncia um malogro estético, por ser unicamente destinada a celebrar Gomes Freire de Andrada.

Quanto a essa é interessante recuperar a ênfase crítica dada por Candido ao afirmar que as introduções do secretário, os discursos do presidente, as poesias dos acadêmicos, nada valem esteticamente. "Desnudam uma subliteratura de fiteiros, glosando, adulando, comprazendo-se em equívocos e trocadilhos, exibindo-se por meio da negaça e da falsa modéstia". [p. 82].

Os textos dessa academia eram feitos para se elogiar um poderoso, cultuar um santo ou celebrar um acontecimento, de forma que acabavam se tornando extremamente demagógicos contribuindo para a formação de um ciclo de elogios mútuos que provocava o fechamento da academia aos membros da sociedade que não tivessem uma condição sócio-econômica destacada. Inicia-se, com isso, também, a definição do status de letrado.

Nos poemas, percebe-se uma quantidade exorbitante de elogios que diversas vezes ofuscavam a intenção inicial do texto, tornando-o ainda mais pobre esteticamente. Isso se observa ao observarmos que o principal recurso na construção desses textos foi o símile que se mostra um dos mais usuais recursos e que, afora isso, não havia individualidades, mas o estilo coletivo de um grupo homogeneamente medíocre.

Isso se corrobora se conferirmos um trecho em que Otávio Paz (1982:20) em que afirma: “Quando um poeta adquire um estilo, uma maneira, deixa de ser um poeta e se converte em construtor de artefatos literários”. Se isso ocorre com um poeta, imagine com um grupo... Não é estranho, portanto, o tratamento enfático de Candido.

O valor dessas obras, segundo Candido, se mostra mais documental do que estético. Uma fonte na qual se bebe a mentalidade duma camada social, através de seus porta-vozes ideológicos. Nesse sentido, deve-se destacar a participação maciça do clero, tanto individualmente como também, no caso dos regulares, que disciplinadamente se misturavam na massa amorfa que se caracterizava a produção coletiva.

Dessa forma, por meio destes documentos, pode-se constatar o monopólio da instrução colonial que garantia os padrões de rotina e tradição literária, os valores de devoção e lealdade à Igreja e à Coroa, em colaboração com magistrados e militares.

As exéquias de Paracatu

Nesse contexto se destacam “As exéquias de Paracatu”, texto encomendado para homenagear Dona Maria Francisca Dorotheia, Infanta de Portugal, filha de D. José I.

Conclui-se, dessa forma, que apesar de apresentarem características significativas para a formação de nossa literatura como a abordagem do tema nativista, o início de uma integração intelectual, o início da formação de um sistema literário, os letrados formavam ainda um grupo que se separava da massa na medida em que integrava os quadros dirigentes na política, na administração, na religião.

Agora, neste INÍCIO foi assim, a literatura engatinhava como atividade grupal. Os grupos ainda eram homogêneos pela falta de expoentes que se libertassem dos valores dominantes e criassem estilos individuais que só quando somados formariam o aspecto grupal. Isso começará a ocorrer, paulatinamente, como bem explicitou Peterson, construindo, ironicamente, uma idéia de emancipação política, e, sobretudo, de emancipação econômica de Portugal.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Peterson Martins
Renan Marques Liparotti
Rochele Kalini
Rosanne Bezerra de Araujo
Rosiane Mariano
Valeska Limeira Azevedo Gomes

Afonso Henrique Fávero
Aldinida Medeiros Souza
Antônio Fernandes de Medeiros Jr
Arandi Robson Martins Câmara
Carmela Carolina Alves de Carvalho
Cássia de Fátima Matos dos Santos
Edlena da Silva Pinheiro
Edônio Alves Nascimento
Eldio Pinto da Silva
Jackeline Rebouças Oliveira
Joana Leopoldina de Melo Oliveira
Kalina Naro Guimarães
Ligia Mychelle de Melo
Mácio Alves de Medeiros
Marcel Lúcio Matias Ribeiro
Marcos Falchero Falleiros
Maria do Perpétuo Socorro Guterres de Souza
Massimo Pinna
Peterson Martins

Editora Martins, 1971:
DE: p. 77: “O ambiente para a produção literária nos meados do século...”
ATÉ: p. 80: “...Pela primeira vez bruxuleou uma vaga consciência de integração
intelectual no Brasil”.


CAPÍTULO II
Transição Literária

1 Literatura Congregada

Neste segundo capítulo intitulado Transição Literária teremos o percurso traçado pela literatura colonial em seu processo de amadurecimento que culminará na literatura nacional desenhada mais solidamente no Romantismo. O primeiro tópico, Literatura Congregada, de que fiquei responsável, trata dos primeiros passos na organização literária brasileira e da função primordial que as arcádias literárias exerceram nesse importante papel de organização não apenas dos produtores, mas também na construção da crítica e do embrião de um mercado consumidor da produção literária que ainda era um autopúblico. Nas importantes funções dessas agremiações literárias que floresceram, sobretudo, na região das Minas Gerais, tal como aponta Antonio Candido, teremos uma certa abertura social na participação delas, embora a exclusão de negros ainda fosse algo marcante na maioria de tais agrupamentos, excetuando a Academia dos Renascidos.



Voltando um pouco ao início do texto é interessante percebermos como essas agremiações literárias coloniais, fortemente influenciadas pela ideologia e princípios da metrópole lusitana, irão, paulatinamente, construindo uma idéia de emancipação política, e, sobretudo, de emancipação econômica de Portugal, influenciadas, ironicamente, pelos mesmos princípios ilustrados pelos quais tanto simpatizava o Marquês de Pombal.


O contexto do Brasil do século XVIII não era dos mais estimulantes, pois até mesmo em períodos anteriores os grandes produtores do barroco literário brasileiro, para terem um certo reconhecimento deveriam obter aprovação na metrópole portuguesa – o que funcionava como um grande poder censurador. Assim, nesse período tivemos a proliferação (de acordo com Candido) de uma subliteratura, graças a essas agremiações literárias (denominadas arcádias ou academias) que irão surgir mesmo bem antes do Arcadismo (pois na fase final do Cultismo barroquiano já se havia iniciado uma associação de produtores literários e intelectuais).


Dentre esses tipos de agremiações literárias, Candido aponta três tipos: permanentes, temporárias e ocasionais. As primeiras, portanto, teriam um caráter mais duradouro, pois se propunham a ser associações culturais, enquanto que as outras duas eram criadas por ocasião de comemorações. Dentre as que tiveram importante papel no amadurecimento literário temos as do primeiro tipo, onde se enquadram: a Academia dos Renascidos em Salvador (que teve um caráter mais popular, inclusive com associação de negros e membros de categorias profissionais desprivilegiadas); a Academia Científica no Rio de Janeiro (fundada, inicialmente, com o intuito de subsidiar o Reino quanto a melhor forma de explorar a colônia, mas que irá extrapolar sua função e se tornará um importante centro educador e formador de homens de ciência); e a Sociedade Literária, também na cidade do Rio de Janeiro, que segundo Candido não era “mais uma Academia: incorporando ao espírito associativo às diretrizes da Ilustração, é um meio caminho para os grêmios liberais de caráter quase sempre maçônico...”.


Prosseguindo em nossas reflexões, percebi que quando relacionamos as observações de Bosi em sua História Concisa da Literatura Brasileira ao trecho em que fala da Arcádia e da Ilustração a química que agitava essas congregações brasileiras fica mais clara. [vejam p. 55-59, 1997].



De tudo isso, pude concluir que foi a partir dessa congregação literária que o delineamento ideológico ilustrado começou a ser construído em um movimento emancipatório que, a princípio, foi despretencioso, pois os inconfidentes, no início, só queriam impedir a Derrama; e muitos (inclusive o nosso Tiradentes) eram contrários à abolição da escravidão, tal como apontam estudos históricos mais recentes. Mas com a disseminação das associações culturais que congregaram os intelectuais e representantes do povo, foi possível redesenhar o sonho da nação brasileira. Isso tudo me faz lembrar aquela música do Humberto Gessinger (Engenheiros do Hawai): “sem querer eles nos deram as chaves que abrem essas prisões”.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Massimo Pinna
Peterson Martins
Renan Marques Liparotti
Rochele Kalini
Rosanne Bezerra de Araujo
Rosiane Mariano
Valeska Limeira Azevedo Gomes

Afonso Henrique Fávero
Aldinida Medeiros Souza
Antônio Fernandes de Medeiros Jr
Arandi Robson Martins Câmara
Carmela Carolina Alves de Carvalho
Cássia de Fátima Matos dos Santos
Edlena da Silva Pinheiro
Edônio Alves Nascimento
Eldio Pinto da Silva
Joana Leopoldina de Melo Oliveira
Kalina Naro Guimarães
Ligia Mychelle de Melo
Mácio Alves de Medeiros
Marcel Lúcio Matias Ribeiro
Marcos Falchero Falleiros
Maria do Perpétuo Socorro Guterres de Souza
Massimo Pinna [14-3-2009]

Belo Horizonte: Itatiaia , 2000. p. 66 - 69


Cap. I, 5: A presença do Ocidente


Antonio Candido lembra que no século XVIII, além da centralidade da razão, a naturalidade, presente em dois aspectos, formalismo e sentimentalismo, representou um ponto essencial da expressão literária, tendo encontrado a sua máxima realização no equilíbrio entre estes dois elementos através das obras de Basílio da Gama, Silva Alvarenga e Gonzaga.

Nesses escritores o encontro espontâneo da razão e do sentimento levou a um resultado satisfatório, assegurando “uma tonalidade universal e artisticamente elaborada à expressão literária”.

No Brasil, em razão de sua condição “periférica”, é preciso indicar a influência do Arcadismo – o qual, lembre-se, abrange tanto o Classicismo como a Ilustração – como também evidenciar que ele constituiu uma literatura capaz de incorporar-se à cultura do Ocidente.

Entre 1750 e 1880 quatro grandes temas nortearam a formação da literatura brasileira, junto a uma progressiva formação da consciência nacional: o conhecimento da realidade local; a valorização das populações aborígines; o desejo de contribuir para o progresso do país; a incorporação aos padrões europeus. Dentro dessas linhas a literatura da época se expressará, comprovando as suas peculiaridades.

Tudo isso representa uma pessoal leitura estético-filosófica da tradição européia no Brasil, leitura que fez com que se criasse – finalmente – uma literatura brasileira orgânica, transformando, por exemplo, o racionalismo em filantropia, a moda pastoril em valorização do índio e o culto da natureza em exaltação do pitoresco.

Escritores como “os mineiros”, Sousa Caldas, José Bonifácio, Hipólito da Costa, favoreceram o nascimento da literatura brasileira e conseguiram fazê-lo, em muitos casos, com aprazível gosto estético e consciência intelectual da própria missão.

Ferdinand Denis Garrett, em seu Bosquejo da História da Poesia e da Língua Portuguesa, de 1826, critica a “inútil presença” da influência cultural grego-romana na produção desses escritores. Num trecho dessa obra citado por Candido, afirma que os árcades não conseguiram ser originais, mesmo tendo à disposição um novo cenário para se inspirarem: o Brasil. Falando especificadamente de Gonzaga, diz que este não soube descrever a natureza peculiar do Brasil e, portanto, não alcançou uma verdadeira autonomia.

Antonio Candido, lembrando que dessa forma surgiu a teoria da literatura brasileira, onde a análise do brasileirismo representa, até hoje, o critério principal, evidencia – em contraponto à análise de Denis Garrett – que o cenário americano nunca seria suficiente para proporcionar essa autonomia e que somente uma pessoal visão do mundo, que “transforma a natureza física numa vivência”, poderia alcançá-la. Como exemplo, Candido releva que Silva Alvarenga, apesar de ter usado palavras como onça, gaturamo, cobra ou mangueira, continua sendo esteticamente neoclássico. Pelo contrário, Tomás Gonzaga, que não usa uma terminologia “americana”, é mais romântico porque “sofre o processo de decomposição do Neoclassicismo”.

Candido afirma que essa tão desprezada “quinquilharia grego-romana” pode ter favorecido a integração cultural entre o Brasil e o Velho Mundo, permitindo aos poetas lusófonos, através da imitação da Antiguidade, associar uma peculiar categoria estética à própria produção literária.

Já que a época exigia uma literatura universalista, os escritores conseguiram essa universalidade através da presença de uma linguagem comum à cultura européia, realizando os votos do intelectual brasileiro, expresso nos versos de Cláudio:
Cresçam do pátrio rio à margem fria
A imarcescível hera, o verde louro

sexta-feira, 6 de março de 2009

Marcos Falchero Falleiros
Massimo Pinna
Peterson Martins
Renan Marques Liparotti
Rochele Kalini
Rosanne Bezerra de Araujo
Rosiane Mariano
Valeska Limeira Azevedo Gomes

Afonso Henrique Fávero
Aldinida Medeiros Souza
Antônio Fernandes de Medeiros Jr
Arandi Robson Martins Câmara
Carmela Carolina Alves de Carvalho
Cássia de Fátima Matos dos Santos
Edlena da Silva Pinheiro
Edônio Alves Nascimento
Eldio Pinto da Silva
Joana Leopoldina de Melo Oliveira
Kalina Naro Guimarães
Ligia Mychelle de Melo
Mácio Alves de Medeiros
Marcel Lúcio Matias Ribeiro
Marcos Falchero Falleiros [6-3-2009]


Editora Martins, 1971:
DE: p. 67: Razão, verdade, natureza são portanto uma coisa só
ATÉ: p. 70: cultura orientada pela razão, a verdade e o culto da natureza.




Vimos na passagem anterior, apresentada pelo Marcel, a equação beleza = razão – verdade – natureza. A tríade se dá como uma unidade inter-relacionada, já que a razão está na natureza e entre elas está a verdade, que cabe à arte obter pela síntese singela em busca da beleza. Esse padrão chega ao século XVIII, sob influência do Classicismo francês, quando a tendência pelo verdadeiro terá da mimesis [a condição da arte] uma expectiva de fidelidade e não de invenção, assim como o sentido da arte estará voltado para a sinceridade das emoções e dos problemas intelectuais e políticos em oposição à sua função de deleite estético.


De Leopardi a Rousseau, da tipologia política de Montesquieu ao elogio de Voltaire a Pope, encontraremos a tríade de simplificação racional, que dará à literatura o sentido da utilidade e dos temas filosóficos. Daí a busca do verdadeiro envolver também a verdade científica e social nas propostas neoclássicas, que cobrarão, em seu nome, também a adequação da sociedade civil aos fins da razão. É o que traduz a Henriade [a epopéia de Voltaire] quando
em seu “asseio lapidar”, como diz Antonio Candido, pede aos reis que escutem e sejam educados pela força e clareza da Verdade, a substituta dos heróis e dos grandes feitos épicos.



Se o homem é extensão da natureza, as leis sociais terão portanto igual possibilidade de objetivação — o que favorece o embrião das ciências humanas no século XVIII e da idéia de progresso, configurada desde quando a revolução teórica de Montesquieu indicou que, pelo conhecimento adequado das leis objetivas da vida social, a humanidade poderia modificar-se no rumo de uma melhoria gradual.


A nossa Ilustração


Ao contrário dos países modelos, o Século das Luzes entre Brasil e Portugal foi tacanhamente beato, escolástico e inquisitorial. Mas ainda que discutível, a presença entre nós do despotismo esclarecido de Pombal foi progressista, desarticulando o poder clerical, como no caso da Companhia de Jesus, e promovendo de algum modo uma renovação mental, em que se pode ver na produção poética de seu período, por trás da intenção adulatória a sua figura, a concepção ilustrada do que seria um bom governo, revelando, na atmosfera difusa de nosso ambiente intelectual, um composto de Ilustração, pombalismo e nativismo, que permitiu aos brasileiros produzirem as expressões mais significativas do pombalismo literário: o Uraguai (1769) de Basílio da Gama (antijesuítico); O desertor (1771) de Silva Alvarenga (pela reforma intelectual); O reino da estupidez (1785) de Francisco de Melo Franco (contra a reação no tempo de D. Maria I).




Junto a outras obras, estas representam o eco brasileiro, luso-brasileiro, das idéias modernas, formando o cadinho ideológico de nativismo, da propaganda do saber, do bom governo e do otimismo utópico, à Rousseau, em que uma mistura de sonho e realidade espera pela educação do homem natural das florestas americanas, criando desde aí uma constante em nosso intelectual: o plano salvador.



Na verdade, somente com a vinda de D. João VI, o Brasil teve modestamente a sua Época das Luzes, com as bases da Independência sendo formadas a partir de uma dinâmica de entrosamento governamental e intelectual. Se a poesia do período foi de qualidade inferior, por outro lado, respondiam às tendências didáticas da Ilustração o jornalismo e o ensaísmo excelentes de Hipólito da Costa, Frei Caneca, Evaristo da Veiga, pensadores liberais que ao lado de “realistas”, conservadores igualmente ilustrados e progressistas, elaboraram os diagnósticos do país e os meios para que uma literatura efetivamente brasileira tomasse corpo. O cristianismo e a filantropia professados por José Bonifácio não eram mais clericalismo, mas a cultura de maçons, com ou sem batina, voltada à razão, à verdade e à natureza, que Pedro II e os jovens românticos a seguir iriam herdar.

sábado, 29 de novembro de 2008

Marcel Lúcio Matias Ribeiro
Marcos Falchero Falleiros
Massimo Pinna
Peterson Martins
Renan Marques Liparotti
Rochele Kalini
Rosanne Bezerra de Araujo
Rosiane Mariano
Valeska Limeira Azevedo Gomes

Afonso Henrique Fávero
Aldinida Medeiros Souza
Antônio Fernandes de Medeiros Jr
Arandi Robson Martins Câmara
Carmela Carolina Alves de Carvalho
Cássia de Fátima Matos dos Santos
Edlena da Silva Pinheiro
Joana Leopoldina de Melo Oliveira
Kalina Naro Guimarães
Ligia Mychelle de Melo
Mácio Alves de Medeiros
Marcel Lúcio Matias Ribeiro [29-11-2008]




Editora Martins, 1971:
DE: p. 62: "A poesia pastoral, como tema, talvez esteja vinculada ao
desenvolvimento"...
[parágrafo iniciando-se no final da página de "Bucolismo"]
ATÉ: p. 66: ..."Mas a verdade é a natureza:
La nature est vrai..."
[primeira página do Cap 4 Verdade e ilustração]




Dando continuidade à análise sobre o bucolismo presente na poesia árcade, Antonio Candido observa que a temática associada à paisagem natural, à vida no campo serve como um contrapeso à cultura urbana que cada vez mais se desenvolve nas cidades do século XVIII. Desse modo, o campo surge, na poesia, representando um ideal de simplicidade e felicidade que não pode ser encontrado na vivência urbana.


Na poesia bucólica, a crítica literária comumente aponta o convencionalismo arcádico como uma característica que a pode tornar menos valorosa, pois, o poeta árcade, como destaca Candido, delega a um pastor fictício a iniciativa lírica. A temática amorosa, portanto, recebe uma abordagem mais lúcida e menos emocional, porque, além das questões estéticas e ideológicas do momento histórico, é latente o fingimento do poeta.


A dicotomia campo-cidade, pastor-poeta acentua ainda mais o convencionalismo da poesia árcade, gerando debates sobre como deveria ser a verdadeira forma a ser adotada na expressão poética: o poema deveria abordar temática extremamente campestre com palavras simples ao alcance de pastores reais ou o poema deveria ser requintado verbalmente trazendo como pano de fundo a relação entre homem e a natureza?


O debate mencionado conduz a uma conceituação do gênero écloga, que deve buscar a simplicidade pautada no gosto e na razão, possibilitando, por suas características, a expressão racional de ideais universais.


No Brasil, a poesia pastoral permitiu ao intelectual brasileiro de formação européia justificar o seu modo de atuação em um país ainda sem a tradição erudita do velho mundo. O contraste entre a personalidade rústica do pastor e a roupagem clássica da poesia árcade serviu para indicar o “descompasso” entre a cultura universal com raízes européias e a cultura local, quase selvagem do mundo “recém-descoberto”. Da reinterpretação desse contraste, surgiu a vertente indianista com Basílio da Gama e Frei de Santa Rita Durão.




Verdade e ilustração



A arte não é uma simples reprodução do real, pois, guiada pela razão, a obra artística consegue apreender a verdade ideal. Por isso, por meio da arte pode-se chegar à categoria estética do belo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Mácio Alves de Medeiros
Marcel Lúcio Matias Ribeiro
Marcos Falchero Falleiros
Massimo Pinna
Peterson Martins
Renan Marques Liparotti
Rochele Kalini
Rosanne Bezerra de Araujo
Rosiane Mariano
Valeska Limeira Azevedo Gomes

Afonso Henrique Fávero
Aldinida Medeiros Souza
Antônio Fernandes de Medeiros Jr
Arandi Robson Martins Câmara
Carmela Carolina Alves de Carvalho
Cássia de Fátima Matos dos Santos
Edlena da Silva Pinheiro
Joana Leopoldina de Melo Oliveira
Kalina Naro Guimarães
Ligia Mychelle de Melo
Mácio Alves de Medeiros [22-11-2008]



Editora Martins, 1971:
DE: p. 58: "Deístas, céticos, ateus; materialistas, empiricistas, sensualistas,"...

ATÉ: p. 62: ..."imagens pastorais, como Garção, Gonzaga, Silva Alvarenga."
[do subitem Bucolismo do Cap 3 Natureza e rusticidade]


Capítulo I – Razão, natureza, verdade
Item 3 – Natureza e rusticidade




A dialética do natural e do racional persiste no comportamento setecentista, embora se perceba que o século XVIII tenha sido um período de transição. A percepção do eu e do outro como representações da existência pessoal mas também do mundo exterior combinava com a revolução que ressaltava o sentimento e estava implícita no empirismo por meio da literatura de Rousseau. E isso demonstrava já a prevalência da magia sobre a simetria matemática, não significando, contudo, a mudança total de paradigmas, mas o fortalecimento do conceito de Natureza, da valorização da emoção, da leitura em voz alta, do recitador enfim, do sentimento do interlocutor, como já frisara Antonio Candido. Fazendo-se uma breve divagação, basta lembrar da multiplicação dos salões de leitura na França do século XVIII, em pleno Antigo Regime que ao proibir uma série de publicações excitava mais ainda a subversão dos leitores. Nesse mesmo contexto, para a valorização da natureza e da rusticidade pode ser representativo o interesse das elites urbanas pela cultura camponesa.


No Brasil, destaca Antonio Candido, a respeito de Silva Alvarenga, tem-se a mera transcrição do preceito horaciano segundo o qual o poeta deveria estar comovido para poder comover. Esse mesmo pensamento também fora defendido, na música, por Emmanuel Bach.


Essa exaltação da sensibilidade como condição na poesia árcade tornou difícil de ser combinada, na obra de Gonzaga, com os elementos racionais. Mesmo assim, a obra de Gonzaga produziu momentos de plenitude da naturalidade, do homem natural com algumas características do seu padrão ideal, embora sua invocação na literatura fosse influenciada por circunstâncias históricas e ideológicas.


O homem natural


O homem natural tornou-se a representação da bondade, tornou-se o herói destituído do caráter humano da urbanidade e da arquitetura apresentada pelo barroco e pelos sistemas monárquicos. Diferentemente disso, ele representa a contemplação da naturalidade das maneiras e dos sentimentos e a assimilação disso pelo social. O equilíbrio entre a forma e o conteúdo é ao mesmo tempo preenchido pela linguagem do coração e da inteligência.


Grande parte da literatura dessa época se empenha na construção de um ideal que defende o homem natural imbuído dos embates culturais envolvendo o erudito e o popular (se é possível interpretar assim), pois era exigido dele a simultaneidade da razão e da emoção, do simples e do requintado, do rústico e do erudito, do polido e do espontâneo. Inclusive, a este último aspecto (considerado a negação da racionalidade) foi conduzido o ideal de naturalidade, depois que o pensamento setecentista ressaltou a identidade do racional e do natural, rompendo o equilíbrio clássico e instalando a lógica do coração e a dicotomia entre sentimentos espontâneos e a razão raciocinante. No contexto geral, menos no Brasil e em Portugal, a razão raciocinante foi dissolvida – como instância superior na criação literária – com a chegada do Romantismo.


Bucolismo


Por fim, na continuidade das manifestações da naturalidade, ao aspecto do homem natural foi acrescentada a ênfase nos gêneros pastorais, que juntava a tradição clássica com relações humanas simples, sendo interpretada, porém, por normas racionais. Assim, o projeto árcade segue no cumprimento de sua atitude estética de tornar equivalentes a palavra e a natureza, substitui a idéia de progresso pela noção de homem natural, acolhendo a utopia em detrimento da nostalgia.

sábado, 15 de novembro de 2008

Ligia Mychelle de Melo
Mácio Alves de Medeiros
Marcel Lúcio Matias Ribeiro
Marcos Falchero Falleiros
Massimo Pinna
Peterson Martins
Renan Marques Liparotti
Rochele Kalini
Rosanne Bezerra de Araujo
Rosiane Mariano
Valeska Limeira Azevedo Gomes

Afonso Henrique Fávero
Aldinida Medeiros Souza
Antônio Fernandes de Medeiros Jr
Arandi Robson Martins Câmara
Carmela Carolina Alves de Carvalho
Cássia de Fátima Matos dos Santos
Edlena da Silva Pinheiro
Joana Leopoldina de Melo Oliveira
Kalina Naro Guimarães
Lígia Mychelle de Melo [15-11-2008]


9ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 2000.
DE: p. 50: "Além desta garantia de excelência do modelo, a Antiguidade"...
[continuação de Busca de Comunicação, do cap 2 Razão e imitação]
ATÉ: p. 54: ..." por vínculo muito mais poderoso, inelutável na sua força
unificadora."
[início do Cap. 3 Natureza e Rusticidade]


A antiguidade, de acordo com Candido, oferecia também, além da garantia de excelência do modelo – que é orgulho do escritos neoclássicos –, outros apoios à teoria arcádica. Um desses apoios era o recurso da despersonalização do lirismo, graças à utilização de temas e personagens antigos (como o mito, a lenda e a história antiga), elementos da linguagem universal, como veículo da emoção. Outro apoio, oferecido pela antiguidade, era a solução de problemas da forma. A adoção de gêneros e espécies tradicionais atenua o arbítrio do autor e permite criar pontos de referência para o homem medianamente culto, propiciando e reforçando a comunicabilidade (um dos alvos do Arcadismo).



A imitação e as regras da retórica, embora tenham sido adotadas para que houvesse comunicação entre os homens, trazem, como conseqüência, a perda da capacidade de observar diretamente a vida e a visão superficial da natureza exterior e da própria natureza humana: “Note-se que a paisagem civilizada, racionalizada, da literatura arcádica é, principalmente, um escorço de paisagem da superfície da terra: árvores, prados, flores, regatos, e os animais pacíficos que nela repousam” (p.51). Candido chama a atenção para o fato de os árcades não terem sentido a magia do mar e do ar (que, posteriormente, foram povoados de magia e de mistério pelos românticos). Em outras palavras: a preocupação exacerbada com o equilíbrio e com o padrão universal acaba “excluindo” as particularidades e gerando um distanciamento do autor em relação ao que está sendo descrito e é isso que dá ao texto poético um caráter estático, superficial e sem graça. O mesmo acontece quando se trata da imitação da vida interior: “Mais do que nunca, é o tempo da psicologia do adulto, branco, civilizado e normal – à qual se procura reduzir a do próprio primitivo, do homem em estado da natureza, que era o padrão. Assim como não se desce aos subterrâneos da terra, não se baixa também aos dos espíritos” (p.52).





Capítulo 3: Natureza e rusticidade


De acordo com Antonio Candido, pode-se dizer que há em literatura três atitudes estéticas possíveis. A primeira delas é quando a palavra é considerada algo maior que a natureza, capaz de sobrepor-lhe as suas formas próprias. Trata-se de uma atitude da estética barroca. A segunda atitude é quando a palavra é considerada menor que a natureza, sendo incapaz de exprimi-la, abordando-a por tentativas fragmentárias: é o caso do Romantismo. E, por fim, há uma atitude estética em que a palavra é considerada equivalente à natureza, capaz de criar um mundo de formas ideais que exprimam objetivamente o mundo das formas naturais. Esse é ao caso do Classicismo.


Na atitude estética do Classicismo há um esforço de equilíbrio. Este é fundamentado no pressuposto de que as formas elaboradas pela inteligência se regem por leis equivalentes às leis da natureza. O belo para os clássicos, aponta Candido, está ligado à idéia de natural, de ser fiel à natureza. No entanto, essa fidelidade trouxe aos cultores da razão conseqüências imprevistas e deu lugar a combinações mais complexas. A complexidade foi, provavelmente, a característica fundamental do século XVIII, principalmente na França e na Inglaterra. Nesses dois países, o século XVIII é considerado de transição, no qual conviviam, lado a lado, blocos do passado (como o racionalismo e o conceito de que o homem nasce com certas idéias inatas) e traços característicos do século futuro (como o empirismo e a idéia de que a mente é um quadro em branco sobre o qual o conhecimento vai sendo gravado).


A chave para a compreensão das principais manifestações literárias do século XVIII deve ser buscada no tipo de racionalismo que o caracterizou. Diferentemente da razão lógica, cartesiana, de Descartes do século XVII, que se exprimia na vida social do espírito pelo senso das conveniências, o novo racionalismo setecentista – contemporâneo do empirismo e da física de Newton – é o mesmo que transparece na ordenação do mundo natural, na qual a atividade do espírito obedece a uma lei geral, que é a própria razão do universo, “unida à natureza por vínculo muito mais poderoso, inelutável na sua força unificadora”.

sábado, 8 de novembro de 2008

Kalina Naro Guimarães
Ligia Mychelle de Melo Silva
Mácio Alves de Medeiros
Marcel Lúcio Matias Ribeiro
Marcos Falchero Falleiros
Massimo Pinna
Peterson Martins
Renan Marques Liparotti
Rochele Kalini
Rosanne Bezerra de Araujo
Rosiane Mariano
Valeska Limeira Azevedo Gomes

Afonso Henrique Fávero
Aldinida Medeiros Souza
Antônio Fernandes de Medeiros Jr
Arandi Robson Martins Câmara
Carmela Carolina Alves de Carvalho
Cássia de Fátima Matos dos Santos
Edlena da Silva Pinheiro
Joana Leopoldina de Melo Oliveira
Kalina Naro Guimarães [08-11-2008]



6ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981.

DE: p. 50 – “Para ele a poesia não era puro deleite (e, portanto, coisa somenos)”...
[segunda página do subitem Cândido Lusitano, do cap. 2 Razão e imitação]

ATÉ: p. 54 – ... “obras é prova segura e infalível de que elas devem ser admiradas”.



Como já indicou Joana na leitura anterior à minha, Candido observa que a contribuição teórica de Francisco José Freire [Cândido Lusitano] posicionou-se em relação à própria importância e função da poesia: ou esta é relevante e merece atenção, ou ela é secundária, podendo, por isso, ser desconsiderada. No interior desse problema, Freire, justificando o trabalho poético, considera que a poesia serve também para edificar o homem, sendo, portanto, “útil ao progresso moral”.



Contudo, Freire aponta não só o caráter instrutivo da poesia, mas também salienta o elemento arrebatador, “o furor poético”, demonstrando uma compreensão e sensibilidade mais apurada, fruto da influência do arcadismo italiano, marcado pela doçura e musicalidade que suavizou o peso didático e racionalista da Ilustração. Todavia, Candido ressalva que o elemento imaginativo não se deve à inspiração gratuita, mas ao trabalho do poeta, enquanto artífice. O deleite do leitor dependerá da novidade, vinculada à beleza e a doçura, trazida pela matéria poética. A beleza configura-se na forma racional, enquanto que a doçura refere-se ao elemento afetivo, capaz de mover o ânimo do leitor.



Dessa maneira, Freire ao vincular a imaginação ao labor artístico enfatiza menos a liberdade do que o domínio e o controle sobre o poético. Ao defender que o “próprio vôo poético deve ser usado com moderação e sem perda da tonalidade racional do poema”, o autor enquadra a sensibilidade e a fantasia no contexto racional, cerceando o espaço que concedeu a esses elementos.



Um aspecto fundamental, para Freire, corresponde à verossimilhança da poesia, na qual a obra teria sua utilidade e seu deleite assegurados. Para o tratadista, o verossímil não se refere, fundamentalmente, à fantasia, mas à aproximação com o verdadeiro objetivamente constatado. Vemos, por conseguinte, que a criação não é concebida como arbítrio, entendimento pouco provável para um neoclássico, mas há um esforço de equilibrar linguagem e realidade, desencadeando uma expressão moderada que atende à verdade poética, composta de “perfeições reais, não de desconcertos, ou ilusões aéreas”.



Candido finaliza indicando a verossimilhança, na acepção definida por Freire, como critério de validade da poesia arcádica. Assim, por um lado, a obra deveria aproximar-se da natureza das coisas, possuindo uma imaginação fiel à razão; por outro, ela deveria apresentar uma linguagem racional, fruto da instrução e da inteligência do poeta.




Busca da Comunicação


Nesse item, Candido aponta que um critério útil para a diferenciação dos períodos e das escolas diz respeito à destinação pública da literatura. Em sua visão, o escritor árcade prefigura um público de salão, pois suas obras desejam ser instrumento de comunicação entre os homens. O Arcadismo, pois, é consciência de integração: as obras se ajustam ao espaço natural, social e literário, decorrendo daí a estética da imitação, pois o poeta tenta reproduzir não somente a realidade, mas também os modelos literários dos autores da Antiguidade, estes tomados como paradigmas, cuja conformidade é digna de orgulho, já que a antiga e constante admiração pelas obras dos antigos é prova infalível do mérito estético desses textos.



Esse processo mimético favorecia a inteligibilidade da obra haja vista que, para o leitor com boa formação humanística, as referências que o poema agencia são conhecidas, pois elas já são relativamente dadas pelo âmbito social, estético e cultural. Assim, os escritores não apresentavam nas obras casos particulares ou a condição individual do homem, mas devotava seu interesse para as situações e emoções genéricas. Não raro, o poeta, no exercício do verso, recorria às grandes circunstâncias da vida, à convenção bucólica, às situações e sentimentos da mitologia e da história greco-latina, preferindo, assim, o universal ao particular.



Candido pondera que, para o gosto atual, na literatura arcádica falta a individuação capaz de construir uma perspectiva que capte a experiência sob o ângulo pessoal do poeta. A partir de dois versos, tomados como exemplo, o autor acrescenta que, mesmo nas poesias mais pessoais do século XVIII, há nelas o vestígio do diálogo “a evitar uma provável solidão”.

sábado, 1 de novembro de 2008

Joana Leopoldina de Melo Oliveira
Kalina Naro Guimarães
Ligia Mychelle de Melo Silva
Mácio Alves de Medeiros
Marcel Lúcio Matias Ribeiro
Marcos Falchero Falleiros
Massimo Pinna
Peterson Martins
Renan Marques Liparotti
Rochele Kalini
Rosanne Bezerra de Araujo
Rosiane Mariano
Valeska Limeira Azevedo Gomes

Afonso Henrique Fávero
Aldinida Medeiros Souza
Antônio Fernandes de Medeiros Jr
Arandi Robson Martins Câmara
Carmela Carolina Alves de Carvalho
Cássia de Fátima Matos dos Santos
Edlena da Silva Pinheiro
JOANA LEOPOLDINA DE MELO OLIVEIRA – [01-11-2008]


Editora Martins, 1971:
DE: p.46: Capítulo 2 - Razão e imitação
"Não esqueçamos que a idéia-força do Arcadismo português (de..."
A : p.49: "...da poética franco-italiana e intelectualismo mitigado pela fantasia."

No começo do Capítulo 2 – Razão e imitação - Antonio Candido inicia suas reflexões sobre o primeiro conceito-chave desse período. Fala para não esquecermos que a idéia-força do Arcadismo português foi polêmica porque tratava de opor e, por isso, foi um movimento eminentemente crítico. Como conseqüência, prezou-se na poesia alguns valores que eram atribuídos à prosa como ordinários: clareza, ordem lógica, simplicidade e adequação ao pensamento. Segundo Candido, esta reconquista da naturalidade dá feições clássicas ao período, pois é ligada a uma estética em que a palavra deve exprimir a ordem natural do mundo e do espírito.

Antonio Candido fala que o Arcadismo em Portugal integra um movimento amplo de renovação cultural e que homens como Verney e Ribeiro Sanches queriam introduzir na pátria o novo espírito filosófico, impregnado das orientações do racionalismo e pós-racionalismo anglo-francês. Na literatura defendiam uma poesia lógica, sem artifícios nem surpresas marcantes.


A literatura francesa precisava de um movimento exatamente oposto ao racionalismo estético. Já em outras partes, como na Itália e Portugal, esse movimento (que o autor chama de dieta magra) vinha corrigir os excessos de um século destemperado, que criou produtos excelentes, mas depois descaiu na orgia verbal. Por isso, os árcades se empenhavam nas duas penínsulas em retomar o decoro e a dignidade da expressão à prosa.


Estas idéias são o ponto de referência da teoria literária do século XVIII em quase toda a Europa. Embora fosse conhecida em Portugal nos fins do século XVII e início do XVIII, só ganham força em meados do século XVIII com o movimento da Ilustração, comandado por Verney.


Verney


Antonio Candido agora abre um subitem para falar de Verney. No seu livro Verdadeiro Método de Estudar, Verney se encontra muito próximo dos teóricos franceses posteriores a Boileau, que despoetizaram ao máximo a teoria poética, mas alguns deles também insistiram no gosto como critério de apreciação. Extremado racionalista, para ele poetar dependia de conhecer as normas da poesia e quando alguém as abandona e confia na inspiração, desanda.


Verney, como homem do seu tempo, também aceita o progresso na literatura e entende que os contemporâneos estavam mais aparelhados para escrever bem, graças à superação dos antecessores pela assimilação do seu exemplo. Enquanto essencialmente pedagogo, a poesia só lhe interessa como instrumento e exercício mental. Repudiava nela os aspectos mais livres e pessoais, para guardar os que se enquadrassem no preceito didático.


Chegou a criticar o próprio Camões, culpando-o de preciosismo nos sonetos e nos Lusíadas, dizendo sentir lacunas de instrução que enfraquecem a poesia. (Isso é brincadeira, né?!!). Por isso, Candido anota o supremo pedantismo deste homem, assim como o do século que ele exprime, cujo racionalismo tendia a um utilitarismo didático que é a própria negação da arte. Mas o nosso autor não deixa de ver nas reflexões antipoéticas de Verney um elemento justo e fecundo, pois repudiava a mania versejante do tempo, reservando o exercício do verso às vocações verdadeiras, dos que fossem capazes de escrever com lógica, naturalidade e modernidade.


Cândido Lusitano


Noutro subitem o autor fala sobre Cândido Lusitano, pseudônimo árcade usado por Francisco José Freire. Ele reequilibra a situação, defendendo que a poesia não visava o puro deleite, mas que, como as demais produções do espírito, era útil ao progresso moral. No seu livro Arte Poética, empreenderá uma conceituação mais ampla que redignifica a poesia, inserindo-a, simultaneamente, nas aspirações do tempo e na tradição clássica. Candido afirma que o seu tratado pode ser considerado pedra fundamental da poesia arcádica portuguesa, pelo seu caráter de superação do cultismo, a imitação da poética franco-italiana e o intelectualismo suavizado pela fantasia.

domingo, 26 de outubro de 2008

Edlena da Silva Pinheiro
Joana Leopoldina de Melo Oliveira
Kalina Naro Guimarães
Ligia Mychelle de Melo Silva
Mácio Alves de Medeiros
Marcel Lúcio Matias Ribeiro
Marcos Falchero Falleiros
Massimo Pinna
Peterson Martins
Renan Marques Liparotti
Rochele Kalini
Rosanne Bezerra de Araujo
Rosiane Mariano
Valeska Limeira Azevedo Gomes

Afonso Henrique Fávero
Aldinida Medeiros Souza
Antônio Fernandes de Medeiros Jr
Arandi Robson Martins Câmara
Carmela Carolina Alves de Carvalho
Cássia de Fátima Matos dos Santos
Edlena da Silva Pinheiro – [25-10-2008]



Editora Hucitec, 1997:
DE: p. 38: "Ainda mais sério é o caso da influência poder assumir sentidos..."
[ainda no item 6 - Conceitos, segunda página]
A: p. 45: "... três grandes conceitos-chave mencionados: razão, natureza, verdade."
[ já entramos aqui no capítulo I, o item I, Traços gerais, inteiro, até o final]

6 - Conceitos, segunda página
Continuando com o conceito de influência, Antonio Candido explica que ela deve ser estudada de acordo com as várias formas que pode exercer numa obra. Ela pode ser apenas uma transferência que não foi trabalhada no texto e que para a crítica deve ter um valor secundário. Porém, pode ser de tal forma incorporada que passa a ser um elemento próprio e independente no texto atual, deixando de ser mero empréstimo. Nesse caso, não convém ser analisada como influência, ao contrário, deve ser vista como parte importante de um conjunto.

Esses conceitos servem para mostrar a sua base crítica no livro, que consiste em interpretar as produções literárias, buscando as coerências interna (de uma obra) e externa (de uma fase, grupo ou corrente). O termo coerência refere-se à integração de um conjunto de fatores (meio, vida, idéias, temas, imagens etc.), formando uma diretriz tomada pelo escritor, cabendo ao crítico a tentativa de descobrir e explicar essa combinação, ou seja, essa fórmula.

Com relação ao autor, a coêrencia é vista através da “personalidade literária”, que não é o perfil psicológico e pessoal, mas são as marcas afetivas, intelectuais e morais que decorrem da análise da obra, e que podem ter correspondência ou não com a vida do escritor. Em relação à fase, a coerência se manifesta através da sintonia e complementariedade entre as obras, originando o estilo. Antonio Candido, então, lembra que por isso não foi rigoroso com as determinações históricas, mas preferiu a análise temporal, sintetizando as condições de interdependência entre as obras literárias.

O crítico ainda salienta que a coerência em parte pode ser inventada pelo crítico, pois de acordo com suas preferências pessoais de intuição e investigação pode salientar um outro eixo explicativo. Daí, então, a possibilidade de vários percursos críticos - se a obra é verdadeiramente grande. Sendo assim, cada geração percebe de um modo um autor, como, por exemplo, em nossa literatura existem tantos textos críticos sobre Guimarães Rosa, Machado de Assis, Graciliano Ramos etc., que não esgotam a análise de suas obras.


Essa parte conclui que a crítica, em busca da coerência, percorre um caminho pleno de escolhas, pois sendo o texto literário múltiplo em significados, é necessário definir um percurso em que se pode relevar características e deixar outras de lado. Assim, num período, o crítico escolhe os autores que vê como mais representativos, nesses autores as obras mais significativas e que se enquadram ao seu ponto de vista e também os temas que prefere ressaltar.


Capítulo 1- Razão, natureza, verdade
1- Traços gerais

Na primeira parte do primeiro capítulo, Candido afirma que as manifestações literárias no Brasil adquirem forma de sistema através de três correntes de pensamento: Neoclassicismo, Ilustração, Arcadismo. A união dessas formas marca o período e o crítico explica que utilizará os três termos quando ressaltar determinado aspecto e que Arcadismo será o mais usado, ficando subentendido que se refere ao conjunto.

O termo Neoclassicismo pode ser utilizado em nossa literatura, pois o movimento da Arcádia Lusitana, influenciada pelas idéias de Verney, tinha por objetivo combater o Barroco e restabelecer padrões clássicos na literatura, através da imitação dos textos gregos e romanos. Antonio Candido prefere o termo Ilustração para evitar confusão com o Iluminismo místico, entendendo-se Ilustração por um conjunto de idéias do século XVIII, de origem inglesa e francesa, como exaltação da natureza, divulgação do saber, confiança no governo de possibilitar o bem comum. Também engloba as idéias filosóficas de racionalismo e empirismo e, além disso, na literatura apresenta as tendências didática e ética.

Já o termo Arcadismo é influência dos italianos que utilizavam as Arcádias, agremiações literárias contra o maneirismo. Esse termo designa melhor as características de renovação do período e engloba os outros dois aspectos, se não for limitado apenas a representação da vida pastoral. Antonio Candido afirma que um período com textos como os de Silva Alvarenga, com influência do maneirismo, não pode ser chamado Neoclássico, daí a preferência para o Arcadismo.

O século XVIII ficou desarticulado de sua tradição nos estudos literários modernos devido à revalorização do Barroco e suas reminiscências do maneirismo, deixando o aspecto clássico em segundo plano. Também devido ao conceito de pré-romantismo que realçou as origens da literatura do século XIX. Além disso, a falta de grandes nomes não deu a devida relevância ao seu estudo e que Antonio Candido propõe dar-lhe no livro.

De um modo geral, a fórmula representativa do período seria: Arcadismo = Classicismo francês + herança greco-latina + tendências setecentistas. Apesar de variar em cada país, de uma forma geral correspondem ao culto da sensibilidade, ao racionalismo e ao interesse por problemas sociais. Assim, de acordo com os estudos tradicionais, a literatura seria uma expressão racional da natureza para manifestar a verdade. A partir disso, o crítico tomará como ponto de partida os conceitos-chave razão, natureza e verdade, para continuar a investigação desse período.